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| ::: D. Zeni Ribeiro Hamdan, um exemplo de determina?. | |
Conte-nos um pouco sobre a sra., lugares que já morou, sua família, amigos.
Meus pais eram da zona rural, a minha mãe é da fazenda de Canoas, município de Martinho Campos. Quando meus pais se casaram, meu avô deu para eles um pedaço de terra ao lado da fazenda de Canoas, mandou fazer uma casinha nova, e colocou os dois ali que era esperando a minha chagada. O papai tinha um sonho de ser militar, resolveu de fugir. A mamãe falava assim: "Ele anoiteceu e não amanheceu". Uma bela madrugada ele fugiu de casa, foi para Belo Horizonte e minha mãe ficou sozinha comigo, grávida, e voltou para a fazenda dos meus avós. Eu nasci na fazenda de Canos, tenho muito amor ao lugarzinho, de vez em quando eu volto lá para matar a saudade, a casa está lá do mesmo jeitinho de 70 anos atrás. E o papai seguiu essa carreira de militar, veio depois, nos apanhou, ele passou uma temporada com minha mãe na fazenda, nasceu a minha outra irma, e depois mudamos aqui para Bom Despacho, mas ficamos morando na Vila Militar por um tempo muito pequeno, foi a conta de nascer o outro meu irmão. Aí nos começamos as nossas andanças, nós fomos para Martinho Campos. Eu era louca para entrar pra escola, então entrei para o grupo escolar, de lá fui para Pompéu, fiz a 1ª série em Pompéu, de Poméu a gente passou para Cana Verde, onde ficamos muito pouco tempo, depois eu voltei para Bom Despacho, terminei a 2ª série no Coronel Praxedes, e fiz a 3ª e 4ª série com a D. Eglantina, a mulher de um tenente.
Porque a sra. escolheu sua profissão?
Como meu pai era militar, ele foi ser ordenança desse tenente, então cresceu uma amizade entre a D. Eglantina com o tenente marido dela Dr. Marcos Rosa e eu, e daí nasceu o meu sonho de ser professora. Quando ela castigava algum aluno dentro de sala ela falava "Um dia você ainda vai ser professora, para ver o tanto que professora sofre", eu então, falava assim lá no meu interior "Seu Deus quiser, eu vou ser uma dessas, eu vou ser professora". Então desde a 4ª série eu já sonhava, eu já tinha meu ideal de vida, já tinha escolhido minha profissão. Mas em Bom Despacho não havia colégio, então nasceu na minha cabeça aquele dilema: "O que que eu vou fazer para mim estudar?. Eu quero estudar, eu quero ser professora!'. E rezava direto, pedia a ajuda de Deus. Mas ajuda "na terra" só não resolve, você tem que procurar alguém para ser seu padrinho e te ajudar a crescer, a realizar o seu ideal de vida. Então eu era amiga da filha do comandante do batalhão daqui na época, ela se chamava Leci, e nós desciamos juntas, ela morava no bangalô eu eu morava nas casas mais humildes, dos soldados. Eu descia, levava a pasta pra ela, entrava todo dia na casa do comandante levando para ela a pasta. Ele batia a mão na minha cabeça e falava: "Menina, mas você é muito pequenininha, já está no quarto ano." E nasceu assim uma amizade minha com o comandante, Na hora que nós recebemos o diploma de 4ª ano, que foi lá no antigo Cine Odeon, eu já estava com a minha cabecinha fervilhando: "Como é que eu vou fazer para continuar meu estudo...". E aí, eu procurei o comandante, imediatamente, e pedi ele para mandar meu pai para uma cidade na qual eu pudesse continuar meu estudo, porque eu queria ser professora. Ele me prometeu que estudaria a situaçao, e assim ele fez: Ele ficou estudando várias cidades e mandou meu pai para Sete Lagoas. Mas quando nós fomos para lá, ja havia passado a época do Exame de Seleção, então eu fiquei um ano parada, mas eu não parei, eu procurei a irmã superiora lá do Colégio Regina Passos, irmã Cândida, que tomou uma amor muito grande por mim, porque eu era assim muito pequenininha mas de muita iniciativa, entao ela falava assim "Essa menina eu vou ajudar." E me orientou, ela disse para eu procurar o prefeito de Sete Lagoas e pedir a ele uma bolsa, e assim eu fiz! Conversei com o prefeito, contei para ele sobre meu sonho de ser professora, expliquei que papai era só soldado, nao tinha condições financeiras para pagar meu estudo, então que eu estava pedindo a ele uma bolsa. Ele então me deu a bolsa de estudos. A irmã cândida me ajudou muito, me emprestava os livros para eu estudar, e minha mãe também foi uma braço forte nos meus estudos, ela começou a buscar lenha pra fora para comprar meus livros, lavava e engomava farda dos soldados, para poder adquirir o dinheiro para comprar os livros pra mim, também ela tinha umas porcelanas, umas peças de cristal que a avó dela tinha dado pra ela de presente, e ela foi vendendo peça por peça, tudo isso para adquirir os livros para mim. Quando eu fui para a segunda série, meu pai foi transferido para Onça do Pitangui, então nós conversamos com a irmã Cândida e eu fui morar no orfanato do colégio. Eu não dava conta de comprar os livros, eu pegava os livros emprestados com as colegas, levantava de madrugada para resumir a matéria. Daí que veio essa minha facilidade para escrever, para resumir, ler um trabalho depressa e tirar e essência dele. E graças a Deus eu fui muito feliz, vim para Bom Despacho, realizei meu sonho, comecei meu trabalho no Coronel Praxedes, trabalhei lá por 13 anos, e depois fui para o Irmã Maria, trabalhei lá como diretora, junto com a irmã Maria.
O que Bom Despacho representa para a Sra.?
Bom Despacho foi minha segunda terra natal, ela me acolheu, aqui eu conheci meu esposo, logo nos casamos, os filhos vieram, e eu fui realizando meus sonhos, tanto o profissional como o de dona de casa. Meu pai tinha um comércio pequeno, de manhã eu estava no Coronel Praxedes e de tarde eu ficava lá na lojinha com ele, Graças a Deus agora eu já estou completando 70 anos, meu marido Nowaf está completando 82, nós somos um casal feliz, realizado.
Conte-nos um pouco sobre as viagens que já realizou, e seus ideais alcançados.
Eu e meu marido já voltamos na terra dele, o Líbano, duas vezes, já conhecemos a terra santa, e já visitei vários países, que era um dos meus sonhos, isso tem até no meu livrinho "Memórias sonhos e Sonhos", que eu tinha alguns sonhos na vida, e devagarinho eu fui realizando todos. O meu primeiro sonho era ter um vestido amarelo, depois um reloginho de pulso, depois conhecer a terra santa, conhecer o Para, fui graduando os sonhos, e eu fui realizando um a um.
Algo de engraçado que já aconteceu com a sra.
O vestido amarelo que eu tinha vontade de ter: Eu e minha tia fomos em uma venda e compramos o tecido amarelo. Minha tia fez o vestido e eu fiquei uma semana olhando a filha dela em troca do trabalho. E depois disso, ela não tinha tido tempo de bordar o vestido. Eu estava lá na fazenda, empolgada esperando o vestido. Mas quando eu o desdobro, o bordado que minha tia tinha feito era um cálice e uma hóstia, e eu pensei: "O que será que ela quis dizer com isso?". Tomei birra de amarelo, e não usei o vestido! Foi uma infância muito feliz, uma formção religiosa muito boa, nós rezava-mos o texto praticamente todas as noites... foi nessa época que eu começei a conhecer o Padre Libério.
Sobre o livro que a senhora escreveu sobre Padre Libério, o que tem para nos contar?
O Padre Libério ia lá na fazenda para dar bençãos, Então aquilo ali, desde pequenininha já cresceu esse amor. Foi um tempo muito bom, de conhecimento dele.
Como nasceu na senhora a vontade de escrever a vida de Padre Libério?
Um dia meu neto chegou aqui em casa e me perguntou se eu sabia algo sobre o Padre Libério, disse a ele que recordava-me um pouco, mas que não tinha dados biográficos dele, mas sabia quem tinha. Então eu procurei o padre Jaime e ele me passou um livro sobre o Pe. Libério, muito grosso. Pensei: Vou escrever alguma coisa da vida do padre Libério, mas que fique acessível para os jovens consultarem, que seja assim sintetizado, uma coisa menor, mais fácil de entender, porque o adolescente tem uma certa dificuldade de encontrar respostas em textos maiores, então o meu objetivo foi esse: Fornecer ao meu neto condições de pesquisar sobre o padre Libério de uma forma mais objetiva, aí eu comecei a escrever, fui ao Leandro Ferreira, entrevistei pessoas que conviveram com ele, entrevistei pessoas da minha família que conviveram muito com ele, e foram me contando casos, foram prestando depoimentoso livrinho que escrevi é cheio de depoimentos de pessoas que receberam cura, milagres, e alguns fatos importantes. que a gente fica até em dúvida (será que isso acontefceu mesmo?!), mas são pessoas de gabarito, autênticas, de honra, que afirmaram, então, resolvi escrever o livro e deu resultado. Esse livro é para o povo conhecer as virtudes do Pe. Libério, o que ele fez de grande nesse tempo que passou por aqui.
Quer deixar alguma mensagem para encerrar?
Eu sou muito grata a Deus, à população de Bom Despacho, que me acolheu com tanto carinho. Apesar de eu não ser bom-despachense e nascimento eu sou uma bom-despachense de coração e de trabalho, a minha vida toda foi realizada aqui, Eu só queria agradecer pelo carinho que os bom-despachenses tiveram comigo, pela ajuda, o apoio, a amizade. Peço aos jovens de hoje que lutem mesmo, batalhem, porque foi com muito sacrifício que eu consegui superar, estudar e realizar o meu sonho de ser professora. Não tenha medo de lutar, porque hoje todo mundo passa por dificuldades financeiras, mas se a gente tiver garra, for passo a passo, com humildade, porque o importante aí é a gente ser humilde, se você mostrar uma boa dosagem de simplicidade, o resto aflora, você sai lá na frente, porque o orgulho, a inveja, isso derruba qualquer um. as pessoas tem o direito de competir, mas competir sem pisar no outro, competir lado a lado, crescer junto, porque a gente nunca cresce sozinho, a pessoa que cresce sozinha é egoísta. A mensagem é essa: Batalhar pelo crescimento da comunidade.
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